sábado, 14 de junho de 2008

Perseguidos

No começo da semana veio um menino em minha casa se dizendo amigo do meu filho, que gostaria de falar com ele, e aproveitando que já estava na porta, pediu dinheiro e comida.

Perguntei porque ele estava na rua e não na escola, e a resposta foi que ele tinha "coisas" pra resolver na rua e perdeu o horário da aula.

Disse que não daria nada a ele e pedi pra que se retirasse.

No dia seguinte Dudu chegou na escola e o moleque o esperava, disse que me viu, e queria saber meu nome porque ele já sabia o nome do pai dele e que trabalhava na tv, e queria saber mais coisas sobre mim.

Eduardo muito bravo disse que não falaria meu nome e pediu para que o deixasse entrar na escola.

O moleque não satisfeito com a resposta, durante a aula escondeu os cadernos do meu filho, deu beliscões em seu braço, escondeu caneta e lápis, e ameaçava dar socos em sua cara, e AINDA pediu pra que o Dudu comprasse balas para ele, caso contrário, os primos, que são membros de uma gangue, o bateriam na saída da escola.

Eduardo não acostumado com esse tipo de gente, chegou em casa muito chateado, com o braço vermelho por conta da "agressão". Chorou. Choramos juntos.

Falei com a diretora no dia seguinte, e descobrir mais sobre esse menino, quem é sua mãe, e que providências deveria tomar sobre o caso.

E eu, atônita ouvi a história triste dessa família completamente desestruturada, onde as crianças são tratadas como nada, e passam fome e uma infinidade de outras necessidades.

Falamos com o Conselho Tutelar e o responsável pelo caso da família me orientou a fazer um Boletim de Ocorrência. Não acontecerá nada ao moleque, que só tem 11 anos.

Liguei pra uma amiga que também faz parte do Conselho Tutelar, e ela me disse que consegue imaginar o que acontece na cabeça desse menino, que não tem nada a perder, não tem família, não tem dinheiro, não tem comida, o que lhe resta é tentar chamar a atenção batendo ou querendo mostrar algum tipo de superioridade no braço, descontando sua ira em alguém com família estruturada, no caso, o Dudu.

Sinto pena desse moleque e da situação em que ele se encontra, por outro lado, não se se simplesmente posso fazer de conta que isso não afeta minha família e meu sossego.

Eles são chamados de "excluídos" e sou eu que não deixo meu filho sair da escola sozinho, nem brincar na rua, nem ir ao supermercado, porque não sei se a gangue o espera em alguma esquina.

Tive o desprazer de ficar cara a cara com esse menino na diretoria da escola. Enquanto conversávamos, fiquei imaginando ele beliscando e ameaçando a dar socos na cara do meu filho, conversamos bastante e eu tentei deixar bem claro pra ele que tomarei outras providências caso ele não pare com as ameaças.

Um sentimento de pavor e impotência toma conta da gente, tentamos ser pessoas boas, damos educação, nos preocupamos com o bem estar dos nossos filhos, enquanto tem o outro lado, que cria bandidos com suas gangues.

Eles são os excluídos, nós somos os prisioneiros.

3 comentários:

Harpa disse...

Poxa, Karen... que coisa terrível! Fico imaginando o Dudu tendo que enfrentar situação tão complicada. Dá mesmo vontade de chorar junto com os filhos da gente, né? Mas você agiu de maneira corretíssima. É uma pena que a violência e o descaso estejam nos fazendo de reféns...

disse...

Que puxa...
Horrível isso, hein?

Viva disse...

Que horror, Karen. eu mesma não sei como me sairia numa situação destas... Boa sorte, espero que as coisas se acalmem por aí.